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Mensagem do Patriarca Ecumênico para o Ano Novo da Igreja (Indicção) | 01.09.2020

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BARTOLOMEU
PELA MISERICÓRDIA DE DEUS ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA-NOVA ROMA E PATRIARCA ECUMÊNICO
A TODO A PLENITUDE DA IGREJA
GRAÇA, PAZ E MISERICÓRDIA DO ARTÍFICE DE TODA A CRIAÇÃO, NOSSO SENHOR, DEUS E SALVADOR JESUS CRISTO

Queridos Irmãos Hierarcas e filhos amados no Senhor,

É uma convicção comum que, em nosso tempo, o meio ambiente está ameaçado como nunca antes na história da humanidade. A magnitude dessa ameaça se manifesta no fato de que o que está em jogo não é mais a qualidade, mas a preservação da vida em nosso planeta. Pela primeira vez na história, o homem é capaz de destruir as condições de vida na terra. As armas nucleares são o símbolo do titanismo prometeico do homem, a expressão tangível do «complexo de onipotência» do «homem-deus» contemporâneo.

Ao usar o poder que vem da ciência e da tecnologia, o que se revela hoje é a ambivalência da liberdade do homem. A ciência serve à vida; contribui para o progresso, para o enfrentamento de enfermidades e de muitos agravos até então considerados «fatais»; cria novas perspectivas positivas para o futuro. No entanto, ao mesmo tempo, fornece ao homem meios poderosoíssimos, cujo uso indevido pode se tornar destrutivo. Estamos vivenciando a destruição crescente do ambiente natural, da biodiversidade, da flora e da fauna, da poluição dos recursos aquáticos e da atmosfera, o colapso progressivo do equilíbrio climático, bem como outros excessos de limites e medidas em muitas dimensões da vida. O Santo e Grande Concílio da Igreja Ortodoxa (Creta, 2016) decretou acertada e esplendidamente que «o conhecimento científico não mobiliza a vontade moral do homem, que conhece os perigos, mas continua a agir como se não soubesse». (Encíclica , § 11).

É evidente que a proteção do bem comum, da integridade do meio ambiente natural, é responsabilidade comum de todos os habitantes da terra. O imperativo categórico contemporâneo para a humanidade é que vivamos sem destruir o meio ambiente. No entanto, enquanto a nível pessoal e ao nível de muitas comunidades, grupos, movimentos e organizações, há uma demonstração de grande sensibilidade e responsabilidade ecológica, as nações e os agentes económicos são incapazes – em nome das ambições geopolíticas e da «autonomia dos a economia» – adotar as decisões corretas para a proteção da criação e, em vez disso, cultivar a ilusão de que a pretensa «destruição ecológica global» é uma fabricação ideológica de movimentos ecológicos e que o ambiente natural tem o poder de se renovar.

O fato de, durante o período de pandemia do novo coronavírus Covid-19, com as restrições obrigatórias de deslocação, fechamento de indústrias e diminuição da atividade e produção industrial, observamos uma redução da poluição e estorvo da atmosfera, provando a natureza antropogênica da crise ecológica contemporânea. Tornou-se mais uma vez claro que a indústria, os meios de transporte contemporâneos, o automóvel e o avião, a prioridade não negociável dos indicadores econômicos e semelhantes, impactam negativamente o equilíbrio ambiental e que uma mudança de direção em vista de uma economia ecológica constitui um fator de inabalável necessidade. Não há progresso genuíno que se baseie na destruição do meio ambiente natural. É inconcebível que tomemos decisões econômicas sem levar em conta também suas consequências ecológicas. O desenvolvimento econômico não pode permanecer um pesadelo para a ecologia. Temos certeza de que existe uma forma alternativa de estruturação e desenvolvimento econômico, além do economicismo e da orientação da atividade econômica para a maximização do lucro. O futuro da humanidade não é o homo œconomicus.

O Patriarcado Ecumênico, que nas últimas décadas foi pioneiro no campo da proteção da criação, continuará suas iniciativas ecológicas, a organização de conferências ecológicas, a mobilização de seus fiéis e especialmente os jovens, a promoção da proteção do meio ambiente como um tema fundamental para o diálogo inter-religioso e as iniciativas comuns das religiões, os contatos com líderes políticos e instituições, a cooperação com organizações ambientalistas e movimentos ecológicos. É evidente que a colaboração para a proteção do meio ambiente cria vias adicionais de comunicação e possibilidades para novas ações comuns.

Repetimos que as atividades ambientais do Patriarcado Ecumênico são uma extensão de sua autoconsciência eclesiológica e não constituem uma simples reação circunstancial a um novo fenômeno. A própria vida da Igreja é uma ecologia aplicada. Os sacramentos da Igreja, toda a sua vida de culto, o seu ascetismo e vida comunitária, a vida quotidiana dos seus fiéis, expressam e geram o mais profundo respeito pela criação. A sensibilidade ecológica da Ortodoxia não foi criada, mas emergiu da crise ambiental contemporânea. A luta pela proteção da criação é uma dimensão central de nossa fé. O respeito pelo meio ambiente é um ato de doxologia do nome de Deus, enquanto a destruição da criação é uma ofensa ao Criador, totalmente irreconciliável com os princípios básicos da teologia cristã.

Muito ilustres irmãos e filhos muito amados,

Os valores ecológicos da tradição ortodoxa, precioso legado dos Padres, constituem uma barreira contra a cultura cujo fundamento axiológico é o domínio do homem sobre a natureza. A fé em Cristo inspira e fortalece o esforço humano mesmo diante dos imensos desafios. Na perspectiva da fé, podemos descobrir e avaliar não só as dimensões problemáticas, mas também as possibilidades e perspectivas positivas da civilização contemporânea. Apelamos aos jovens ortodoxos para que percebam o significado de viver como cristãos fiéis e pessoas contemporâneas. A fé no destino eterno do homem fortalece nosso testemunho no mundo.

Com este espírito, do Fanar, desejamos a todos um Novo Ano Eclesiástico propício e abençoado, frutífero em obras semelhantes às de Cristo, para o benefício de toda a criação e para a glória do sábio Criador de todas as coisas. E nós invocamos sobre todos, pelas intercessões da Toda-Santa Theotokos, a Pammakaristos (Θεοτόκος ἡ Παμμακάριστος), a graça e a misericórdia do Deus das maravilhas.

1o de setembro de 2020.
Bartolomeu de Constantinopla
Suplicante fervoroso de todos perante Deus

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